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Algumas consideraes finais sobre o fazer pesquisa
Nosso objetivo, neste ltimo captulo, depois de ter apresentado, em linhas gerais, as etapas de
pesquisa,  trazer-lhe algumas informaes e comentrios que possam familiariz-lo e faz-lo refletir 
um pouco mais sobre o fazer pesquisa em Psicologia. 
Overstreet (1967, apud Botom, 1979) considera o conhecimento psicolgico como o conhecimento 
do sculo. Salienta que, embora tenhamos tido dramticos avanos na fsica e na qumica com o 
mtodo cientfico, esta atitude (cientfica) em relao  natureza e experincias humanas  nova. 
Segundo Botom (1979), a psicologia  a disciplina do momento: est na moda no apenas nas 
revistas e livros, mas nas verbas de pesquisa, na proliferao de escolas. . . (l3otom, op. cit. p. 2). 
O autor tambm apresenta dados referentes ao nmero crescente de faculdades de Psicologia de 
1960 a 1980, no Estado de So Paulo: de apenas uma para 23 faculdades. 
Se analisarmos a atividade de pesquisa em Psicologia, vamos, da mesma maneira, encontrar um 
aumento no nmero de pesquisas realizadas. 
Nas reunies anuais da Sociedade Brasileira para o Progresso da Cincia (SBPC), por exemplo, que 
 a maior e mais abrangente sociedade cientfica do pas, tem havido uma presena cada vez maior 
de pesquisas em Psicologia: na primeira metade de 1970 uma mdia de 40 pesquisas eram 
apresentadas anualmente, no congresso; 
na segunda metade dessa dcada e incio de 80 a mdia subiu para 60 pesquisas apresentadas anualmente. 
Embora esse aumento seja animador,  importante notarmos, por outro lado, que a parcela de psiclogos (ou 
interessados na rea) que fazem pesquisa  ainda muito pequena quando comparamos com o nmero de 
psiclogos que se forma a cada ano (a partir de 1980, s no Estado de So Paulo, em torno de 3.000 novos 
psiclogos a cada ano). Num clculo grosseiro, poderamos dizer que apenas 2% dos psiclogos (em So 
Paulo) realizam pesquisa. 
No  nosso propsito analisar aqui os vrios determinantes do fato da atividade de pesquisa em Psicologia 
estar ainda, a nosso ver, engatinhante. Poderamos, para isto, nos reportar  histria da Psicologia, ao seu 
vnculo com a Filosofia, s dificuldades do pesquisar em si mesmo, ou mesmo aos aspectos scio-econmicos 
e polticos de nosso pas e s prioridades dadas s atividades de pesquisa em geral. Embora seja extremamente 
relevante analisar e entender esses fatores,  um tema bastante complexo e extenso para que seja vivel 
abord-lo em apenas um captulo. 
O fato  que, embora exercida ainda por uma minoria, a atividade de pesquisa no Brasil  de extrema relevncia. 
Faria (1981) considera que  da atividade de pesquisa que surge o progresso de uma nao, a evoluo da 
cincia e da tecnologia, porque  atravs dela que se pode conhecer as caractersticas de nossa realidade de 
modo efetivo, para contribuir com melhorias. 
Souza (1980) tambm aponta a pesquisa como relevante, considerando-a uma maneira de evitar a mera 
importao de conhecimentos, a qual torna o aprendizado do que  cincia e pesquisa desinteressante para os 
alunos. Diz ele: 
A formao de profissionais de nvel superior sempre foi predominantemente acadmica, isto , feita por um 
professor que geralmente l em livros estrangeiros e recita-os djante de alunos pasmados... Para o professor 
que nunca teve contato com os dilemas do artesanato ou da descoberta cientfica, dominar a fundo este tipo de 
produto importado  tarefa tremendamente rdua, seno impossvel (Souza, 1981, p. 1028). 
A conseqncia, ento, so aulas distantes de nossa realidade, sobre pesquisas que pouco ou nada tm a ver 
com nossos problemas e necessidades atuais. 
Varsavsky (1976) aprofunda essa anlise e apresenta uma proposta em termos do currculo do primeiro ano 
universitrio. Para ele, uma forma de contato com a realidade nacional, destinada a estimular o esprito criativo, 
para resolver seus principais problemas, 
1 Dados extrados dos resumos de Reunies Anuais, publicados pela SBPC. 
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 a participao constante e macia, desde o comeo da vida universitria, em certos projetos de pesquisa cientfico-
tecnolgica (Varsavsky, 1976, p. 79). 
Para ele, os alunos realizariam verdadeiros trabalhos de pesquisa, agindo como pesquisadores de produo, populao e 
recursos naturais, em todos os seus aspectos: densidade, caractersticas demogrficas, situao dos servios escolares, de 
comunicao etc., moradia, nutrio etc. Os estudantes no se limitariam a executar instrues, mas discutiriam 
previamente a significao cientfica e a utilidade prtica de cada varivel e problema de pesquisa. Ao mesmo tempo, 
segundo Varsavsky, participariam na preparao dos mtodos: questionrios, forma de entrevista etc., discutiriam tambm 
suas experincias, dando opinio sobre o valor e a confiana nos resultados. 
Agindo dessa maneira, a aplicao de proedimentos copiados de famosas universidades do hemisfrio norte mostraria 
seus defeitos, no s ideolgicos, como tambm tcnicos.., por exemplo, a maneira de entrevistar pessoas com diferentes 
hbitos de comunicao e outros traos culturais (Varsavsky, 1976, p. 81). 
Esse mesmo autor alerta tambm para os problemas que naturalmente adviro dessa participao de estudantes nas 
atividades de pesquisa, desde o incio da carreira universitria: tentativa e erro, necessidale de pesquisas-piloto etc. 2 
Trata-se, em nossa opinio, de uma estratgia que , alm de tudo, didaticamente eficaz: fazer pesquisa, sob orientao,  a 
melhor maneira de entend-la e gostar dela. O ler sobre pesquisa, ver exemplos, que se constitui no primeiro passo 
fundamental, deve ser complementado pela ao do pesquisar. 
Neste sentido, vale a pena citar Varsavsky mais uma vez: 
Numa sociedade criativa todos participam, normalmente, de alguma atividade de pesquisa. No como seus profissionais e, 
sim, como praticam, por exemplo, o esporte. Nem todos querem ou podem jogar no primeiro time, mas todos sabem 
bem do que se trata e so capazes de avaliar o que se faz... Por modesta que for sua participao, o estudante aprende mais 
atravs de trabalho criativo em equipe do que pelos mtodos tradicionais (Varsavsky, p. 80, 1976). 
Foi nosso propsito, ao escrever este livro, que ele servisse como o primeiro passo, e que tivesse despertado o interesse 
para a participao em pesquisas e mobilizao, no sentido de tornar os cursos introdutrios sobre cincia e pesquisa uma 
real oportunidade para o pesquisar de fato. 
2 Pesquisa-piloto  entendida aqui como a aplicao da etapa de coleta de dados apenas como teste dos instrumentos 
empregados. 
Uma vez que ns, enquanto autores deste livro, temo. que, 
nesse contexto, limitar nossa ajuda a sugestes escritas, gostaI amos 
de finalizar, fornecendo-lhes alguns exemplos de pesquisa (Anexo 1) 
e alguns nomes de rgos que incentivam e subvencionam a realizao de pesquisas e de revistas onde se 
pode encontrar inmeros 
e excelentes exemplos de pesquisas brasileiras (Anexo 2). 
E, depois de terem lido este livro, consultado os anexos e os materiais de pesquisa que contm, consideramos 
que voc esteja apto a esboar suas primeiras idias enquanto pesquisador, discuti-las com seus professores e 
fornecer, desde j, sua parcela de contribuio ao desenvolvimento da Psicologia como cincia e pesquisa, 
produzindo, com isso, uma psicologia que atenda e investigue (estude) aspectos de nossa realidade. 
Esperamos, neste sentido, que este livro tenha atingido seu objetivo principal: o de t-lo motivado, e 
despertado seu interesse para este necessrio e fascinante empreendimento chamado pesquisa. 
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